Este artigo faz parte Ignoradouma série de obituários sobre pessoas notáveis cujas mortes, a partir de 1851, não foram relatadas no The Times.
Manuel Francisco dos Santos, o extremo brasileiro conhecido como Garrincha, nasceu com um corpo que parecia inadequado para o futebol.
Sua perna esquerda se curvou para fora; a direita, mais de dois centímetros mais comprida, curvada para dentro. Segundo relatos variados, ele nasceu com uma doença congênita na coluna ou contraiu poliomielite quando menino. Sua irmã mais velha achou que ele se parecia com uma carriça infeliz, então ela o apelidou de Garrincha, uma palavra portuguesa para “passarinho”.
Não parecia provável que ele crescesse para jogar futebol, e muito menos para levar o Brasil aos seus dois primeiros títulos da Copa do Mundo – em 1958 e 1962 – como atacante do time na ala direita. Em 1962, empatou como artilheiro e foi eleito o melhor jogador da Copa do Mundo.
Garrincha atuou com uma magia tão encantadora que alguns especialistas, ainda hoje, o consideram inigualável no drible.
Ele tinha um equilíbrio extraordinário, uma grande explosão de velocidade, o senso de finta de um boxeador e uma mudança de direção rápida e imprevisível. Ele colocava o pé na bola e desafiava um zagueiro a tentar tirá-la. Ele driblava um zagueiro e depois o deixava alcançá-lo antes de dar um chute zombeteiro para o gol.
Quando Garrincha jogava, “o campo virava um picadeiro de circo, a bola uma fera domesticada, o jogo um convite para uma festa”, escreveu Eduardo Galeano, o escritor uruguaio às vezes conhecido como poeta laureado do futebol, sobre Garrincha em “Futebol ao Sol e Sombra” (1995). “Como uma criança defendendo seu animal de estimação, Garrincha não largava a bola, e a bola e fazia manobras diabólicas que faziam as pessoas morrerem de rir.”
“Em toda a história do futebol”, acrescentou Galeano, “ninguém fez mais gente feliz”.
A seleção brasileira nunca perdeu nenhuma partida disputada por Garrincha até sua 50ª e última partida, na Copa do Mundo de 1966. Até então, ele não conseguiu superar os danos no joelho direito e sua vida pessoal tornou-se complicada com o abuso de álcool, dificuldades financeiras e problemas com mulheres. Ele ficou deprimido e mais de uma vez tentou tirar a própria vida.
Ele morreu em 20 de janeiro de 1983, aos 49 anos. A causa foi cirrose hepática, gastrite, demência e psicose aguda relacionada ao álcool, escreveu Ruy Castro em uma biografia inabalável, “Garrincha: o triunfo e a tragédia do herói esquecido do futebol brasileiro”, publicada originalmente em português em 1995.
Em campo, dividiu campo com o grande Pelé, sete anos mais novo, e os dois nunca perderam uma partida que disputaram juntos. Mas enquanto Pelé se tornou uma divindade do futebol considerada um homem do mundo, Garrincha permaneceu efetivamente um garoto de bairro imperfeito e identificável, querido pelo público brasileiro por sua abordagem alegre ao esporte.
“Embora os brasileiros coloquem Pelé em um pedestal, eles não o amam como amam Garrincha”, escreveu Alex Bellos em “Futebol: The Brazilian Way of Life” (2002).
“Pelé não reflete os desejos nacionais”, acrescentou Bellos. “Pelé, acima de tudo, simboliza a vitória. Garrincha simboliza jogar por jogar. O Brasil não é um país de vencedores. É um país de um povo que gosta de se divertir.”
Manuel Francisco dos Santos nasceu em 28 de outubro de 1933, em uma família pobre da vila de Pau Grande, Brasil, cerca de 64 quilômetros ao norte do Rio de Janeiro. Ele era de ascendência indígena e seus avós foram escravizados. Seu pai, Amaro Francisco dos Santos, trabalhava como guarda numa fábrica têxtil local. Sua mãe, Maria Carolina dos Santos, criava cabras, porcos e galinhas.
Após avançar para a terceira série, Garrincha abandonou a escola e demonstrou pouco interesse em qualquer coisa além de caçar, pescar e jogar futebol. Seu primeiro baile foi feito de jornais enfiados nas meias de uma tia. Ele aprendeu a jogar descalço, desenvolvendo seus dribles astutos em um campo de saibro acidentado, onde um passo em falso poderia significar perder a bola em um barranco.
Ele jogou por um time de fábrica em Pau Grande, depois por uma liga regional, ingressando em um clube profissional chamado Serrano, onde ganhava cerca de um dólar por jogo em 1951, pouco menos de US$ 13 hoje. Em 1953, com quase 20 anos, estreou-se profissionalmente no Botafogo, clube de destaque do Rio.
Garrincha é frequentemente creditado por inspirar os primeiros gritos de “olé” no futebol, durante uma partida de clube na Cidade do México, em fevereiro de 1958. Enquanto atormentava um zagueiro, passando a bola pelas pernas do pobre homem e driblando em volta dele, a multidão extasiada aplaudiu como se estivesse assistindo a uma tourada.
Ele ingressou na seleção brasileira em 1955. Durante a Copa do Mundo de junho de 1958, o Brasil manteve Garrincha no banco nas duas primeiras partidas. Ele foi titular na terceira partida, ao lado de Pelé, então com 17 anos, contra a União Soviética. Numa abertura frenética, os dribles audaciosos de Garrincha deixaram três jogadores soviéticos no chão e o estádio encheu-se de gargalhadas.
Ele acertou um chute na trave e depois passou para Pelé para um chute que desviou na trave. No terceiro minuto, o atacante Vavá marcou, dando ao Brasil vantagem de 1 a 0 na vitória final por 2 a 0. Gabriel Hanot, um jornalista francês, chamou-os de “os três melhores minutos da história do futebol”.
Na vitória por 5 a 2 sobre a Suécia no finalGarrincha deu assistência para dois gols em cruzamentos da ponta direita. Quatro anos depois, depois que Pelé sofreu uma lesão na virilha na segunda partida do Brasil pelo Copa do Mundo de 1962 e perdeu o restante do torneio, Garrincha ajudou a vencê-lo com atuações individuais notáveis. Ele marcou com as pernas e a cabeça – algo raro na época –, marcando dois gols cada nas quartas de final e nas semifinais, e depois jogou com febre na final, uma vitória por 3 a 1 sobre a Tchecoslováquia.
Um jornal chileno, El Mercurio, perguntou em manchete: “Garrincha, de que planeta você é?”
Mas na Copa do Mundo de 1966, da qual o Brasil saiu humildemente, sua vida tomou um rumo trágico. Seu hábito de beber era alarmante. Deixou a primeira esposa, Nair Marques, e as oito filhas para se casar com um renomado sambista, Elza Soaresnuma união tumultuada que se tornou um escândalo nacional.
Em 1969, enquanto supostamente dirigia bêbado e sem faróis no escuro, Garrincha sofreu um acidente que matou sua sogra, que estava no banco do passageiro. Soares deixou Garrincha em 1977, depois de socá-la e chutá-la. Mais tarde, eles se divorciaram.
Apesar do trágico caos dos seus últimos anos, a sua morte em 1983 provocou uma onda de pesar nacional. Fãs, amigos e ex-companheiros de equipe passaram por seu caixão aberto durante um acordar no famoso Estádio do Maracanã, no Rio, e depois ladearam as estradas e passarelas de pedestres enquanto o caixão era levado em cima de um caminhão de bombeiros para um cemitério a cerca de 65 quilômetros de distância, perto de Pau Grande. A inscrição na sua lápide invocava uma das frases pelas quais era conhecido: “Aqui descansa em paz aquele que foi a Alegria do Povo”.