Agronegócio, energia, logística e turismo estão entre os setores que podem sofrer prejuízos

Estudo alerta que super El Niño pode pressionar a economia do MS no fim do ano
Calor e sol em Campo Grande, capital de MS, durante o verão de 2025. (Foto: Osmar Veiga)

Pesquisadores da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) indicam a possibilidade de um Super El Niño no segundo semestre de 2026 e alertam que o aspecto pode trazer impactos que vão além das mudanças no clima. Estudo do LCA (Laboratório de Ciências Atmosféricas) da instituição aponta que, se as projeções atuais forem confirmadas, as questões poderão afetar o agronegócio, o transporte, a geração de energia, o turismo e até a pressão dos preços dos alimentos no fim do ano.

Pesquisadores da UFMS alertam para a possibilidade de um Super El Niño no segundo semestre de 2026, com anomalias de temperatura entre 3°C e 4°C acima do normal no Oceano Pacífico. As influências podem impactar o agronegócio, transporte, energia e saúde pública. Em Mato Grosso do Sul, há previsão de aumento de chuvas no sul e comportamento variável no norte e oeste. Especialistas recomendam planejamento antecipado para reduzir prejuízos.

As previsões divulgadas em julho pelos principais centros internacionais de monitoramento climático indicam que o aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial Centro-Leste poderá atingir seu pico entre novembro e dezembro. As anomalias previstas variações entre 3°C e 4°C a mais na região, ponta que colocaria o evento entre os mais intensos desde o início das tendências modernas, superando episódios registrados em 2015-2016 e outros anos anteriores.

O El Niño altera a circulação atmosférica global ao calor das águas do Oceano Pacífico Equatorial, modificando os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta, inclusive no Brasil.

Em Mato Grosso do Sul, os reflexos variam conforme a região. A tendência é de aumento das chuvas no sul do Estado, enquanto as regiões norte e oeste podem apresentar comportamento mais variável, dependendo da intensidade das características e da atuação de outros sistemas atmosféricos.

O estudo destaca que o agronegócio está entre os setores mais vulneráveis. A irregularidade das chuvas pode comprometer o desenvolvimento de culturas como soja, milho, algodão, feijão e cana-de-açúcar, além de afetar a pecuária com redução da qualidade das pastagens, estresse térmico dos animais e aumento da ocorrência de doenças.

O pesquisador do LCA da UFMSThiago Rangel Rodrigues, relata que o desafio não está apenas na quantidade total de chuva, mas também na forma como ela se distribui ao longo da estação de cultivo. “A irregularidade das precipitações pode comprometer significativamente a produtividade agrícola”, destaca o pesquisador.

Os impactos, porém, não se limitam ao campo. Quebras de safra e dificuldades no transporte da produção podem elevar os custos logísticos e suspender os preços dos alimentos. Chuvas intensas também podem aumentar gastos com manutenção de rodovias, enquanto alterações no regime de cheias afetam o turismo, especialmente no Pantanal.

Na área de recursos hídricos, mudanças na distribuição das chuvas influenciam o nível dos rios, a recarga de reservatórios e a disponibilidade de água para abastecimento, supervisão e geração de energia. Já na saúde públicaperíodos mais quentes e úmidos favorecem a proteção do mosquito Aedes aegypti, aumentando o risco de doenças como dengue, chikungunya e zika.

Embora o cenário exija atenção, os pesquisadores ressaltam que o El Niño pode ser acompanhado com meses de antecedência, permitindo que produtores, empresas e gestores públicos adotem medidas para reduzir prejuízos.

“O monitoramento contínuo permite que governos, produtores rurais e a sociedade se preparem com antecedência. Planejamento agrícola, gestão dos recursos hídricos, fortalecimento da infraestrutura e sistemas de alerta são ferramentas essenciais para aumentar a resiliência diante dos eventos climáticos extremos”, afirma Thiago.

O pesquisador reforça que a atualização da intensidade das especificações dependerá da evolução das condições do oceano e da atmosfera nos próximos meses e defenderá o uso das variações climáticas no planejamento.

“Mais do que reagir aos eventos extremos, precisamos desenvolver uma cultura de prevenção baseada na ciência. Quanto mais primeiros produtores, gestores públicos e a implementarem a estratégia climática ao planejamento, maiores serão as chances de reduzir prejuízos e aproveitar melhores as oportunidades de cada safra e de cada estação”, conclui.

Apesar da expectativa, o pesquisador relata que ainda é cedo para confirmar a intensidade das influências. Thiago destaca que os modelos mais recentes desenvolvidos pela NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) vêm elevando as estimativas para a temperatura da superfície do mar no Pacífico. Em algumas simulações, as anomalias chegam a 4,8°C a mais, enquanto metodologias mais conservadoras apontam valores entre 3,3°C e 3,5°C a mais, suficientes para caracterizar um episódio extremamente intenso.

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