Parecer alerta para fragmentação ecológica, mas diz que ocorreu expansão sobre pastagens

Um parecer técnico elaborado pelo MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) acordos de áreas contínuas de plantio de eucalipto com trechos de até 20 quilômetros em linha reta sem corredores ecológicos na região centro-leste do Estado. Segundo o estudo, essa configuração reduz a conectividade entre remanescentes de vegetação nativa, dificulta a localização da fauna e aumenta a fragmentação dos habitats.
Parecer técnico do Ministério Público de Mato Grosso do Sul incluiu blocos contínuos de eucalipto de até 20 quilômetros sem corredores ecológicos no centro-leste do Estado, o que amplia a fragmentação de habitats e dificulta a localização da fauna. O estudo também indicou que a expansão ocorreu principalmente sobre áreas já degradadas, com 5.907,70 hectares de conversão direta de vegetação nativa entre 2016 e 2024, além de 412,25 hectares em Áreas de Preservação Permanente.
O Campo Grande News procurou a Reflore-MS (Associação Sul-Mato-Grossense de Produtores e Consumidores de Florestas Plantadas) para comentar o conteúdo do parecer. Até a publicação desta reportagem, a entidade não havia direcionado posicionamento oficial.
O documento foi produzido pela Nugeo (Núcleo de Geotecnologias), vinculado ao Caoma (Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Defesa do Meio Ambiente), no âmbito do Inquérito Civil (06.2026.00000708-0), instaurado pela 1ª Promotoria de Justiça da Comarca de Três Lagoas para apurar possíveis impactos ambientais decorrentes da expansão da silvicultura em Mato Grosso do Sul.
Na avaliação técnica, o avanço da atividade exige maior planejamento territorial para preservar a conectividade ecológica entre os remanescentes florestais. O parecer ressalta que instrumentos previstos na legislação ambiental, como APLICATIVOS (Áreas de Preservação Permanente), Reservas Legais e corredores ecológicos, são fundamentais para reduzir o isolamento dos fragmentos de vegetação e permitir a deslocação da fauna.
A expansão ocorreu principalmente sobre áreas já antropizadas
Apesar do alerta sobre a fragmentação da paisagem, o parecer conclui que a expansão da silvicultura ocorreu predominantemente sobre áreas já antropizadas, especialmente pastagens antigas.
Segundo os técnicos, a dinâmica predominantemente observada foi a conversão de áreas anteriormente utilizadas pela pecuária para o cultivo de eucalipto, e não a substituição direta de vegetação nativa.
O estudo envolveu, entretanto, casos de conversão direta de vegetação nativa para plantios de eucalipto. Entre 2016 e 2024 foram mapeados 5.907,70 hectares nessa condição, o equivalente a 0,38% da vegetação nativa apresentada.
Desse total, 1.893,01 hectares, ou 32,04%, decorreram de desmatamentos considerados ilegais, enquanto 4.014,69 hectares, correspondentes a 67,96%, resultaram de supressões autorizadas pelos órgãos ambientais.
O parecer ressalta que, embora os quase 5,9 mil hectares representem uma área significativa em termos absolutos, a conversão direta de vegetação nativa corresponde a uma pequena parcela da expansão recente da silvicultura.
Plantações em APLICATIVO representa pequena parcela
O levantamento também inclui planejamentos de eucalipto em Áreas de Preservação Permanente.
Segundo o estudo, foram mapeados 412,25 hectares de eucalipto em APLICATIVOSdistribuídas em 134 propriedades rurais.
O cruzamento das informações com o Sicar (Sistema de Cadastro Ambiental Rural) apontou a existência de 3.669 propriedades com silvicultura na área comprovada. Assim, apenas 3,65% delas apresentam plantios em APLICATIVO.
O parecer destaca ainda que muitas dessas áreas de preservação já foram encontradas degradadas antes da implantação da silvicultura, permanecendo sem recuperação ambiental.
Fragmentação é o alerta principal
Na avaliação dos técnicos do Ministério Público, a principal preocupação ambiental identificada não está relacionada ao desmatamento em larga escala para implantação da silvicultura, mas à configuração da paisagem formada por grandes maciços contínuos de eucalipto.
Pelo que parece, a ausência de corredores ecológicos em trechos que chegam a 20 quilômetros reduz a conectividade entre remanescentes de vegetação nativa, dificulta o fluxo de espécies e amplia a fragmentação dos habitats.
Ao final, o documento conclui que o avanço da silvicultura exige maior integração entre o planejamento territorial e a conservação ambiental, especialmente para garantir a manutenção da conectividade ecológica entre os remanescentes florestais e minimizar os impactos sobre a biodiversidade.