Ex-prefeito foi sepultado nesta segunda-feira cercado por familiares, amigos e políticos contemporâneos
Ao som de Mercedita, um dos chamamés mais famosos do mundo, letra que fala de um amor que termina, mas deixa lembrança, familiares, amigos e antigos aliados políticos se despediram do ex-prefeito Alcides Bernal na tarde desta segunda-feira (13), em Campo Grande. Descendente de paraguaios e ex-presidente da Colônia Paraguaia, antes do adeus, o político foi levado até o túmulo por cortejo marcado por músicas, lágrimas e aplausos.
Familiares, amigos e políticos se despediram do ex-prefeito de Campo Grande Alcides Bernal na tarde desta segunda-feira (13), no Cemitério Jardim das Palmeiras, ao som de chamamés e músicas populares. Bernal morreu às 0h35 após sofrer um infarto e passar pelo terceiro cateterismo de urgência na Santa Casa. Ele foi preso preventivamente desde março, acusado de matar um auditor fiscal, e completou 61 anos nesta terça-feira (14).
Desde o momento da oração até a retirada do caixão, as pessoas localizadas ao redor dele. Quando a música começou, o choro se colocou entre os presentes.
Além de Mercedita, foram tocadas Gostava Tanto de Você, de Tim Maia, Longa Estrada da Vida, eternizada na voz da dupla Milionário e José Rico, e Noites Traiçoeiras, do Padre Marcelo Rossi. A descida do caixão foi marcada por aplausos.
Um dos que ajudaram a carregar o caixão do advogado Wilton Acosta, amigo de Bernal há cerca de 25 anos e integrante da equipe responsável por sua defesa no caso de assassinato do tributário fiscal contratado Roberto Carlos Mazzini. A amizade entre os dois começou justamente na Colônia Paraguaia.
A companheira do ex-prefeito, Mirian Elzy Gonçalves, e a filha, Sarah Anahi Bernal, acompanharam a despedida e preferem não falar com a imprensa. Ao longo do dia, passaram pelo velório político, antigos membros da administração municipal, advogados e amigos de diferentes períodos da vida de Bernal.
Entre eles estavam o deputado federal Geraldo Resende, do União Brasil, o ex-prefeito e vereador Marquinhos Trad, do PV, o vereador Riverton de Souza, Beto Figueiró, a ex-secretária municipal Jacqueline Hildebrand Romero, o empresário Valdemir Gamarra Gaúna e os advogados Ricardo Machado e Wiltob. Também esteve na despedida a publicitária Márcia Sherer, que trabalhou na campanha de Bernal e integrou a assessoria de comunicação da Prefeitura de Campo Grande durante a gestão dele.
Geraldo Resende afirmou que, embora nunca tenha sido próximo de Bernal, sempre respeitou sua trajetória e, principalmente, o resultado das urnas que o levou ao Paço Municipal. “O Bernal teve uma passagem vitoriosa pela política. Foi vítima, em algumas circunstâncias, da má política, mas acredito que deu a contribuição que poderia, dentro daquilo em que acreditava”, afirmou.
O deputado lembrou que Bernal chegou à carga mais importante da Capital pela vontade popular e que, após ser cassado pela Câmara Municipal, acabou reconduzido ao posto por decisão judicial. “Eu nunca fui próximo dele. Ao contrário, não tivemos proximidade, mas sempre teve respeito por ele como ser humano. Ele deu a contribuição que pôde para Campo Grande. Alguns podem achar que foi benéfico, outros podem pensar diferente, mas o importante é consideração que ele fez o esforço dele”, disse Geraldo.
Márcia Sherer, que conviveu profissionalmente com Bernal entre 2012 e 2018, disse que a notícia da morte deixou um sentimento de tristeza e injustiça. Para ela, essa sensação não se limita aos acontecimentos dos últimos meses, mas atravessa toda a trajetória política do ex-prefeito. “O Bernal sempre perdeu por justiça, sempre buscou que a verdade sobre tudo o que viveu fosse revelada. Nós até imaginamos que isso aconteceu quando foi deflagrada a Operação Última Ratio, e isso nos deu esperança”, afirmou.
A publicitária também lembrou os anos em que trabalhou ao lado dele e as conversas frequentes sobre os debates políticos enfrentados pelo ex-prefeito. “Costumamos brincar que fomos ‘caçados’ junto com ele e depois voltamos com ele para administração. Guardo excelentes lembranças desse período. Além da saudade, fica esse sentimento de que a justiça ainda precisa ser feita. O Bernal vai deixar muita saudade.”
Segundo Márcia, Bernal mantinha a expectativa de provar sua versão sobre os acontecimentos que marcaram sua passagem pela política. “O Bernal confiou na Justiça e sempre disse que a verdade seria provada, que conseguiria demonstrar tudo o que aconteceu em Campo Grande e todas as perseguições que sofreram. Essa esperança era muito presente nas nossas conversas, e essa é a lembrança que fica para mim.”
Marquinhos Trad, que sucedeu Bernal na administração municipal, afirmou durante o velório que os dois tiveram divergências políticas e administrativas, mas mantiveram uma relação de respeito. Também disse que o ex-prefeito perseguiu perseguições ao longo da trajetória e deixou sua marca na história da Capital.
Riverton de Souza destacou que a história de Bernal não poderia ser resumida aos episódios recentes. O vereador lembrou que ele passou pela rádio, exerceu dois mandatos de vereador e chegou à Prefeitura sem pertencer a uma família tradicional da política estadual. Beto Figueiró avaliou que a cassação de 2014 foi um marco que acompanhou Bernal pelo restante da vida pública. Já Jacqueline Hildebrand Romero registrou as oportunidades profissionais que recebeu do ex-prefeito e a atuação ao lado dele no Legislativo e no Executivo.
Da rádio à Prefeitura e à prisão
Bernal nasceu em Corumbá, formou-se em Direito e começou a trabalhar como radialista em 1992. Foi eleito vereador de Campo Grande em 2004 e reeleito quatro anos depois. Em 2010, chegou à ALEMS (Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul) com 26,1 mil votos.
Em 2012, venceu a eleição para prefeito com 270.927 votos no segundo turno, o equivalente a 62,55% dos votos válidos. Dois anos depois, tornou-se o primeiro prefeito de Campo Grande cassado pela Câmara Municipal. Em agosto de 2015, voltou ao cargo por decisão judicial e concluiu o mandato no fim de 2016.
Nos últimos meses de vida, Bernal voltou aos holofotes após ser preso preventivamente, em 24 de março, pela morte do auditor fiscal de 61 anos. O ex-prefeito admitiu ter atirado, mas sustentou que agiu em defesa legítima. O Ministério Público de Mato Grosso do Sul, por sua vez, apresentou outra versão sobre a motivação do crime. Bernal morreu antes de ser julgado.
A morte ocorreu às 0h35 desta segunda-feira (13), depois do ex-prefeito sofrer um novo infarto e ser submetido ao terceiro cateterismo de urgência desde o início da internação na Santa Casa. Os médicos constataram trombose nos stents implantados nas artérias do coração. Após sucessivas tentativas de reanimação, o óbito foi constatado. Bernal tinha 60 anos e completou 61 nesta terça-feira (14).
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