Obra da artista Bejona foi inaugurada durante o Julho das Pretas e homenageia uma das maiores lideranças negras
Quem passa pela Rua Dr. Temístocles, em frente à antiga estação ferroviária de Campo Grande, vê um mural colorido com o rosto de Dandara dos Palmares, guerreira negra que se tornou símbolo de resistência contra a escravidão. A obra foi inaugurada no último sábado (18) como legado da festa “Julho das Pretas: Vozes de Dandara”.
Assinada pelos artistas Bejona e Bene, a obra foi pensada para permanecer no espaço público e provocar reflexão em quem passa pelo local.
“É uma das mulheres mais resistentes da nossa cultura, e trazer essa memória é necessário, porque todas as mulheres ali também são símbolos de resistência”, afirma Bejona.
Para o artista, o mural também funciona como um convite para que mais pessoas conheçam a história do líder quilombola.
“Mesmo quem não conhece a história de Dandara, consegue se questionar, ao passar pelo mural, sobre a importância daquela mulher ali retratada”, diz. “Espero que a obra estimule quem passa a pesquisar sobre quem é aquela mulher e a importância da luta dela para que todos estejamos aqui, existindo e resistindo”, completa.
Dandara dos Palmares viveu no século XVII e participou da organização e das estratégias de resistência do Quilombo dos Palmares. Ao lado de Zumbi, tornou-se uma das principais referências da luta da população negra no Brasil.
A apresentação do mural marcou o encerramento da programação do Julho das Pretas: Vozes de Dandara, que levou centenas de pessoas à Esplanada.
Ao longo do sábado, o público acompanhou apresentações do Samba das Pretas, com Karla Coronel, Nivi e Luci, além de oficinas de passinho, charme e twerk, feira de economia criativa e atividades externas à valorização da cultura afro-brasileira e latino-americana.
O evento foi organizado pelo Coletivo Geni (Grupo de Estudos Negras Intelectuais), em parceria com o Afrogueto, Casa Pele Preta, Ponto Bar e Feira Afro MS, como parte das mobilizações do Julho das Pretas, movimento realizado em referência ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, realizado em 25 de julho.
Para a cofundadora do Geni, Ladi Souza, ocupar os espaços públicos com cultura também é uma forma de transformação.
“Hoje, celebramos a nossa tecnologia social, a potência dos coletivos negros, pessoas fazendo aquilombando os espaços urbanos com arte, música e movimento”, afirmou. “Quando a cultura ocupa espaço, ela amplia horizontes, aproxima pessoas e nos lembra que a diversidade é uma riqueza coletiva”.
A coordenadora do coletivo, Caroline Torres, destacou que a iniciativa fortalece artistas locais e movimenta a economia criativa.
“Por meio da música, da moda, das artes e de tantas outras expressões criativas, nós giramos a economia coletiva”, disse. “Assim, a gente fortalece e valoriza artistas locais – principalmente mulheres negras que vêm resistindo e são resilientes há gerações, com pouco ou nenhum respaldo”.
Para Mari Pele Preta, fundadora da Casa Pele Preta, ações como essa também têm impacto econômico. “Transformaram ao criar oportunidades e valorizaram a independência financeira de mulheres pretas e periféricas que, por eras, viveram à margem do crescimento econômico”, resume.

