Costureira da Capital com tensão articular é exemplo de como sobrecarga nos sistemas públicos vira desafio

Demora em exames e perícias deixa pacientes com dor crônica no "limbo"
Zildene trabalha como costureira desde a adolescência e hoje sofre com dor crônica (Foto: Arquivo pessoal)

Como a maioria, Zildene Carla de Lima não tem opção e precisa trabalhar. O problema é ter que vender sua força de trabalho à custa de muita dor. Quando os analgésicos que mascaram o problema não funcionam, ela recorre a um posto de saúde para tomar medicação na veia. Isso acontece mais de uma vez por mês.

Zildene Carla de Lima, 48 anos, costureira em Campo Grande, aguarda há mais de dois anos e meio por uma ressonância na coluna pelo SUS. Com lesões articular degenerativas, ela recorre mensalmente a postos de saúde para medicação intravenosa. Após ação judicial, a Sesau foi obrigada a fornecer o exame em 60 dias, sob multa de R$ 5 mil diárias. O médico Flávio Freitas alerta que pacientes com dor crônica enfrentam um sistema de saúde e previdenciário sobrecarregado.

A mulher tem 48 anos, é costureira numa empresa de confecções e mora no Bairro Nova Lima, em Campo Grande. Tem dores crônicas há mais de uma década. Seu diagnóstico é de dor articular. O caso é degenerativo, ou seja, tende a se agravar com o tempo.

“Preciso sair do serviço mais cedo quando a dor começa a irradiar para as pernas e fica insuportável. Tem ficado cada vez pior”, ela confirma.

Anos de espera – A costureira aguarda há mais de dois anos e meio uma vaga para fazer ressonância na coluna pela rede pública da Capital. Viúva e mãe de dois filhos, não tem uma alternativa de pagar pelo exame numa clínica particular. “Nem por curiosidade cheguei a olhar o preço porque não tenho condições”, afirma.

Ela sempre acompanhou o andamento do pedido de exame na unidade de saúde próxima de sua casa. Diz nunca ter recebido uma ligação ou mensagem avisando sobre a liberação da vaga de que precisa.

Inconformada com a demora, enquanto as dores só aumentam e passam para outras partes do corpo, entrou com processo judicial em março deste ano. Uma decisão favorável ocorreu em 10 de julho, obrigando a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) a providenciar o exame para Zildene em até 60 dias, sob pena de multa diária de R$ 5 mil, limitada a R$ 500 mil.

Nem a Sesau nem a Procuradoria-Geral do Município se manifestaram nos autos ainda. A reportagem questionou a assessoria de imprensa da pasta da Saúde sobre o caso e sobre os motivos da espera prolongada de outros pacientes que enfrentam a mesma situação. Não houve retorno até a publicação desta matéria, mas o espaço segue aberto.

Demora em exames e perícias deixa pacientes com dor crônica no "limbo"
Costureira fez a imagem para mostrar o dia em que esteve no posto e foi informada que não existia mais o pedido de vaga (Foto: Arquivo pessoal)

O que a costureira achou estranho é que, na última sexta-feira (10), soube que seu pedido não constava mais do Sisreg (Sistema de Regulação). “Eu perguntei o motivo na recepção do posto, mas não me responderam. Já ia completar três anos”, diz. Apesar disso, ainda não há notícias sobre a vaga.

Aposentadoria – Quando estiver com o resultado do exame em mãos, Zildene terá que voltar ao médico. Ela acha que será necessário fazer mais algum para investigar uma dor nas mãos que piorou.

O diagnóstico de rigidez articular veio em 2009. A mulher fez o tratamento recomendado com uma cinta, mas que não deu certo. “É porque tenho escoliose ‘para dentro’, então só servia para fazer mais”, conta. Ela acabou não buscando outro tratamento por ter ficado deprimida enquanto vivia o luto pelo marido, que trabalhou como pedreiro e morreu após ser atingida por um muro que desabou, em 2016. “Só voltei a mexer com minha saúde há uns quatro anos, agora que meus filhos estão criados. Tenho que ficar me medicando no posto de saúde enquanto o exame não sai”, relata.

O plano após fazer a ressonância é reunir todos os resultados e elogios médicos para ir até o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e pedir aposentadoria por invalidez permanente. Zildene trabalha como costureira desde a adolescência, mas ficou por muito tempo sem registro na carteira de trabalho. Além disso, trabalhei numa fazenda por um período, o que dificulta o pedido de aposentadoria por tempo de contribuição.

Dois sistemas sobrecarregados – Médico do trabalho, psiquiatra e conselheiro do CRM (Conselho Regional de Medicina), Flávio Freitas cita que, em demandas como essa, lidar com o SUS (Sistema Único de Saúde) e com o sistema Previdenciário sobrecarregados torna-se um desafio a mais para os pacientes, deixando-o num “limbo”.

“Os pacientes com dor crônica geralmente chegam num limite em que não fornecem mais exercício de atividade laboral, sem um benefício provisório ou uma aposentadoria.

Demora em exames e perícias deixa pacientes com dor crônica no "limbo"
Exemplos de doenças que geram afastamentos e quantidade de concessões

Na empresa de perícia médica da qual ele é proprietário e também atende, os pacientes levam cerca de dois anos para conseguir a aposentadoria. O médico defende que um elogio médico bem embasado faz diferença, confirmando que aqueles que dependem da rede pública costumam levar muito tempo para conseguir um.

“É melhor um documento bem feito, que resume tudo aquilo de forma cronológica para o médico perito falar: “esse paciente é isso, fez isso e está assim. Vou conceder”. Não é volume, não é a quantidade de exames. É o exame certo para cada paciente, o laudo correto para cada paciente”, diz.

Mas antes mesmo de um laudo estruturado, vem o diagnóstico correto. É outra dificuldade grande, segundo Flávio. Pode se passar muitos anos até que o paciente saiba o que realmente tem, qual o melhor tratamento e se a doença é incapacitante mesmo ou não.

Demora em exames e perícias deixa pacientes com dor crônica no "limbo"
Médico Flávio Freitas fala sobre a relação entre trabalho e dor (Foto: Cassia Modena)

Não existe uma lista de doenças que geram automaticamente aposentadorias. Uma mesma enfermidade pode deixar uma pessoa incapacitada para o trabalho e outra, não.

Tudo depende de como a doença se manifesta em cada pessoa, conforme critérios de sexo, idade, estilo de vida e profissão, por exemplo. “A dor é muito subjetiva, tem um limite, mas tem gente que com pouca dor já gera incapacidade. Outros não conseguem trabalhar com muita dor”, finaliza o médico.

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