Caro(a)conviva,
Ninguém vira inserção da noite para o dia. A gente vai virando, prestação por prestação, rotina por rotina, até que um dia olha no espelho e não permite mais quem sustenta a casa. Foi assim com Gregor Samsa, o caixeiro-viajante que Kafka transforma, numa manhã qualquer, num inseto monstruoso. E é assim, silenciosamente, com muita gente que você conhece, talvez com você mesmo.
A cena mais cruel de “A Metamorfose” não é uma transformação. É o que vem depois: a família, aos poucos, deixando de ver Gregor como filho e passando a vê-lo como estorvo. Ele não morre no primeiro parágrafo. Morre todos os dias, um pouco, na medida que deixa de ser útil. Há aqui uma crueldade: a do utilitário funcional, normalizado com o passar do tempo. Os dias passam e o mal se torna banal.
Eu me lembro de uma reunião em que discutimos o desligamento de um profissional que havia dado trinta anos de vida na instituição. Alguém disse, sem malícia, quase com pena: “ele já não entrega o que entregava”. A frase me atravessou, porque era verdade, e porque era exatamente a lógica dos Samsa. Ninguém ali era mau. Todos éramos, apenas, eficientes. E a eficiência, quando vira voltada exclusivamente para o valor humano, é uma forma elegante de crueldade. Ela se livra sem titubear. Há nela uma consciência de dever cumprido.
Antes de virar inserção, Gregor já não se via como filho, irmão ou homem com direito à segurança. Via-se como provedor da família. Sua identidade foi reduzida a uma função muito antes da metamorfose física acontecer, o detalhe é apenas uma revelação visível de algo que já havia sido instalado por dentro. Essa é a inversão que Kafka nos obriga a fazer: não é Gregor quem se torna monstruoso. É uma família. É o pai que tira maçãs contra o próprio filho. É a irmã, Grete, que primeiro cuida dele com ternura e depois, exausta, declara que é preciso “se livrar dele”. A verdadeira metamorfose do livro é a da família, que se transforma de gente em contabilidade. Cada gesto de cuidado vira custo. Cada minuto perdido com ele vira minuto perdido de vida própria. O provedor vira peso, porque deixou de ser útil.
E aqui uma dura realidade da natureza humana: em geral, tendemos a amar as pessoas pelo que elas fazem por nós até o dia em que precisamos ama-las pelo que elas são, e é nesse dia que a maioria de nós fracassa.
É fácil apontar o que fazer para o Samsa e esquecer que carregamos, dentro de nós, o mesmo projeto silencioso. O colega que já não rendeu como antes. O pai idoso que virou um problema logístico. O amigo em crise que passou a evitar porque sua dor exige tempo que não temos. Nelson Rodrigues diria, sem pudor, que todos nós temos um pouco de família Samsa escondida no armário da consciência, e que a hipocrisia começa exatamente na certeza de que jamais seríamos capazes disso. Porque, afinal, são os outros que fazem assim.
Gregor morre sozinho, num quarto trancado, esquecido pela própria família que sustentou por anos. A cena final é quase insuportável em sua indiferença: os pais e a irmã, aliviados com a morte dele, saem para passear e planejam o futuro. Uma vida segue. É sempre assim que a vida segue quando alguém deixa de ser útil: sem drama, sem culpa, só um leve e despudorado rompimento planejado de luto.
E aí, caro(a) leitor, fica a pergunta para você: quando alguém ao seu redor para de “render”, por doença, idade, fracasso ou simplesmente cansaço, que tipo de família você vai ser? A que tira maçãs, ou a que continua vendendo gente onde os outros só enxergam um inseto?
Pense nisso.
Gillianno Mazzetto é filósofo e doutor em psicologia.
Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.
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