Mensagem revela a banalização da corrupção e a perda do compromisso com a vida humana

Há escândalos que chocam pelo dinheiro envolvido. Outros, pela sofisticação do esquema. Mas poucos revoltam tanto quanto aqueles em que a corrupção deixa de ser um ato escondido para se transformar em motivo de comemoração.
A Operação Gutenberg expôs diálogos entre investigados que comemoravam supostos desvios em contratos públicos da Coordenadoria de Regulação da Saúde, enquanto os pacientes aguardavam cirurgias e leitos de UTI. Mensagens como “merecemos” e “é gostoso ganhar 50 assim” revelam, segundo o Gaeco, não apenas suspeitas de corrupção, mas a perda da dimensão humana da carga. A investigação ainda apura responsabilidades, mas os registos já geram indignação pela banalização do sofrimento alheio.
As conversas reveladas pela investigação da Operação Gutenberg expõem muito mais do que suspeitas de desvios. Elas revelam uma manipulação moral difícil de aceitar. Enquanto os pacientes aguardavam exames, cirurgias e vagas em hospitais, enquanto as famílias conviviam com a angústia da espera, investigavam trocavam mensagens como quem celebra uma conquista profissional.
“Hoje vamos tomar uma. Merecemos.”
A palavra “merecemos” talvez seja a mais chocante de todas. Ela transmite a sensação de quem acredita ter obtido um prêmio, quando, na verdade, a investigação aponta para contratos públicos cercados de suspeitas, divisão de propina e movimentações financeiras incompatíveis com a ética praticada por agentes públicos.
Poucas horas depois, veio outro convite: “Vou na Valley comemorar”. Do outro lado, a resposta: “É gostoso ganhar 50 assim”. Em outro diálogo, diante da perspectiva de novos contratos, um deles comemora que agora “vamos ficar bem”. A resposta vem transmitida de simbolismo: “Em nome de Jesus”. Dias depois, a expectativa de uma semana “bem próspera” recebe um novo “amém”.
Não há apenas suspeita de corrupção nesses diálogos. Há uma perda absoluta da dimensão humana da carga ocupada pelos envolvidos.
A Coordenadoria de Regulação da Saúde não administra números. Administração vidas. Cada vaga representa um paciente que espera por uma cirurgia, uma criança aguardando atendimento especializado, um idoso dependendo de um leito de UTI. É uma das funções mais sensíveis do Estado. Exige responsabilidade, humanidade e compromisso absoluto com o interesse público.
Por isso, causa indignação imaginar que alguém pudesse sair para brindar com justiça no momento em que contratos suspeitos eram pagos e recursos públicos circulavam entre investigados, segundo o relatório do Gaeco.
A utilização do nome de Jesus nas conversas torna o episódio ainda mais perturbador. A fé, que para milhões de brasileiros representa honestidade, solidariedade e respeito ao próximo, aparece invocada em meio a mensagens que, segundo a investigação, tratavam de vantagens obtidas em contratos públicos. Não se trata de discutir religião. Trata-se de confidencialidade a profunda contradição entre o discurso e a conduta.
A investigação ainda precisa definir todas as responsabilidades, inclusive esclarecendo eventual participação de agentes políticos indicadas nas apurações. O processo devido legal deve prevalecer para todos. Mas os diálogos já conhecidos são suficientes para produzir indignação na sociedade.
Dinheiro desviado pode ser recuperado. Contratos podem ser anulados. Servidores podem ser condenados. O que dificilmente será reparado é a confiança perdida de quem depende da saúde pública.
Porque ninguém que tenha consciência do sofrimento enfrentado diariamente nos corredores dos hospitais consegue compreender que alguém diga “merecemos” e vá comemorar em um barco enquanto milhões de pessoas apenas esperam por aquilo que a Constituição já lhes garante: atendimento digno e respeito à vida.
Essa talvez seja a face mais cruel da corrupção: quando ela deixa de ser praticada às escondidas e passa a ser comemorada como motivo de orgulho.