Polícia apura se avião decolou com vento de cauda antes de cair
Equipe no Cenipa fazendo estudos no local (Foto: Maya Severino/Arquivo)

A Polícia Civil descobriu que a aeronave que caiu após a decolagem do Aeroporto Santa Maria, em Campo Grande, iniciou o voo com vento de cauda, ​​condição que pode reduzir o desempenho do avião durante a descolagem. A hipótese surgiu após a análise de um vídeo da biruta do aeroporto, gravado aproximadamente dois minutos depois da saída.

A Polícia Civil investiga se a aeronave que caiu após decolar do Aeroporto Santa Maria, em Campo Grande, iniciou o voo com vento de cauda. A hipótese surgiu após análise de vídeo da biruta do aeroporto. O acidente, ocorrido em 3 de julho, matou a pesquisadora alemã Lydia Möcklinghoff e o piloto. Testemunhas dizendo neblina intensa no local. O caso também é investigado pelo Cenipa.

A aeronave decolou às 6h44 do dia 3 de julho pela cabeça 06, conforme registrado no boletim de ocorrência elaborado pela Decco (Delegacia Especializada de Combate ao Crime Organizado). Segundo o boletim de ocorrência, as imagens registradas pouco depois mostraram a biruta baixa do vento alinhada para a cabeceira 24, sentido oposto ao escolhido pelo piloto.

O acidente matou a pesquisadora alemã Lydia Theresia Möcklinghoff, de 45 anos, e o piloto da aeronave, Henrique Martin de Carvalho, 42. Lydia realizou pesquisas sobre a fauna pantaneira e viajou para a Fazenda Barranco Alto, em Aquidauana.

Conforme respondido por profissionais da área, os números 06 e 24 não representam faixas diferentes. Eles identificaram os dois sentidos da mesma faixa de pouso e decolagens, conforme a orientação magnética. A profundidade 06 aponta aproximadamente para 60 graus, enquanto a 24 está externa para cerca de 240 graus.

Em geral, as aeronaves decolam contra o vento, porque o fluxo de ar favorece a sustentação e pode reduzir a distância necessária para a saída do solo. Caso o vento realmente estivesse alinhado à cabeceira 24, o avião teria usado o sentido contrário, com possível vento de cauda.

Essa circunstância, porém, ainda não está comprovada. O vídeo da biruta não foi feito no momento exato da decolagem, mas cerca de dois minutos depois. A direção e a intensidade do vento podem ter mudanças durante esse intervalo. A imagem também não permite, sozinha, determinar a força do vento ou calcular o impacto sobre o desempenho da aeronave.

O boletim afirma que testemunhas relataram neblina intensa no Aeroporto de Santa Maria e ausência de condições para operações visuais. A situação poderia provocar o cancelamento ou adiamento de outros voos previstos para aquela manhã.

Polícia apura se avião decolou com vento de cauda antes de cair
Destroços da aeronave bimotor modelo Seneca foram encontrados na área de mata após o outono na manhã desta sexta-feira (Foto: Juliano Almeida/Arquivo)

Silvio Monteiro, coronel aviador da FAB (Força Aérea Brasileira) e piloto de aviões e helicópteros com mais de 35 anos de experiência na área de busca e salvamento, afirma que qualquer conclusão sobre possível erro na escolha da descida seria prematura. Segundo ele, ainda será necessário descobrir quem eram as testemunhas, qual era o conhecimento delas sobre aviação e em que momento observaram a biruta.

Também será preciso verificar se a leitura ocorreu antes, durante ou depois da decolagem. “Essa é uma das muitas perguntas que a investigação do acidente deve responder. Qualquer um que afirmar isso neste momento está especulando”, ponderou.

Além do inquérito policial, o acidente é investigado pelo Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos). A investigação técnica deverá cruzar os vídeos com dados meteorológicos, características da aeronave, condições da pista e informações sobre a operação do voo.

Neblina e vento fraco – Outro piloto ouvido pela reportagem relatou que a presença de neblina costuma estar associada a vento calmo ou de baixa intensidade. Caso essa condição seja confirmada, a diferença entre usar a cabeceira 06 ou a 24 pode ter tido influência pequena na decolagem.

Nesse cenário, a biruta mostraria uma direção predominante, mas não necessariamente um vento forte o suficiente para voltar útil a escolha feita pelo piloto.

Na avaliação dos profissionais consultados, a questão ambientalmente mais grave era de baixa visibilidade. Um deles estimou que o teto de nuvens estava em aproximadamente 200 pés, cerca de 60 metros, condição que não permitia uma decolagem normal pelas regras de voo visual.

A estimativa, no entanto, ainda precisa ser comparada com registros meteorológicos oficiais.

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