Sem Cacon, pacientes do SUS enfrentam filas para cirurgia reparadora após tratamento do câncer de mama
Mato Grosso do Sul não possui o Cacon (Centro de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia), unidade habilitada para oferecer atendimento integral às pessoas com câncer. Neste cenário, mulheres submetidas à mastectomia pelo SUS (Sistema Único de Saúde) realizam a retirada da mãe nas unidades responsáveis pelo tratamento oncológico, mas muitas precisam aguardar em filas específicas para a proteção mamária, considerada uma etapa importante da reabilitação física e emocional.
Mato Grosso do Sul registrou 1.136 mastectomias pelo SUS entre 2014 e maio de 2024, mas apenas 893 reconstruções mamárias no período, com queda nos procedimentos em 2024. Sem Cacon no Estado, a oferta é técnica no Hospital de Câncer Alfredo Abrão, que diz atender 73% dos casos, mas enfrenta demanda acima da capacidade e pagamento do SUS abaixo do custo.
Dados do SIH/SUS (Sistema de Informações Hospitalares do SUS) mostram a dimensão dessa demanda. Entre janeiro de 2014 e maio de 2024, foram realizados 1.136 procedimentos de mastectomia no Estado, incluindo mastectomia radical com linfadenectomia, mastectomia simples, mastectomia radical com linfadenectomia axilar em oncologia e mastectomia simples em oncologia. Desse total, 818 cirurgias foram realizadas em Campo Grande, 111 em Três Lagoas, 100 em Dourados, 80 em Corumbá, 21 em Maracaju, duas em Amambai, duas em Bonito, uma em Naviraí e uma em Ribas do Rio Pardo.
Embora a legislação brasileira assegure o direito à proteção mamária desde 1999 e determine, desde 2013, que o procedimento ocorra no mesmo ato da mastectomia sempre que haja condições clínicas, a realidade ainda está distante do previsto na lei. Dados do Ministério da Saúde mostram que o acesso às regiões à cirurgia reparadora permanece limitado em diversas regiões do país, especialmente no Centro-Oeste.
Em Mato Grosso do Sul, os registros do SIH/SUS indicam que, entre janeiro de 2014 e maio de 2024, foram realizados 893 procedimentos de extração de mama no Estado. Neste período, foram realizados 870 procedimentos selecionados como plástica mamária feminina não estética. O número caiu de 111 cirurgias em 2014 para 67 em 2024.
Especificamente com o nome de supervisão mamária após mastectomia os procedimentos passaram a ser contabilizados separadamente no Datasus (Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde) apenas a partir de 2023. Desde então, foram registradas 23 cirurgias em 2023, 17 em 2024 e uma em 2025.
Incidência – O desafio para ampliar o acesso à sobrevivência mamária ocorre em um contexto de alta incidência da doença. Segundo o Boletim Epidemiológico do Câncer de Mama em Mato Grosso do Sul, o câncer de mama é uma neoplasia maligna mais frequente entre as mulheres brasileiras.
O Estado registra a maior taxa bruta de câncer de mama na região Centro-Oeste, com 58,12 casos, acima da média regional de 44,24. Os registros da doença também mostram tendência de crescimento, conforme o Painel Oncologia. Entre 2020 e 2023, os novos casos passaram de 572 para 880. Em 2024, houve uma leve redução, com 814 casos registrados.
Segundo o boletim, a cobertura da mamografia de rastreamento estadual alcançou 39,01% em 2024, índice abaixo do recomendado para reduzir a mortalidade pela doença. As diferenças regionais também são expressivas, pois enquanto a região Sudeste do Estado atingiu cobertura de 64,12%, o Baixo Pantanal registrou apenas 25,35%, evidenciando desigualdades no acesso ao diagnóstico precoce.
Cenário nacional – O cenário estadual acompanha uma tendência nacional. Levantamento da Folha de S.Paulo, realizado em parceria com a SBM (Sociedade Brasileira de Mastologia) e especialistas da SBCO (Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica), aponta que apenas 17% das mulheres submetidas à mastectomia entre 2014 e 2024 conseguiram realizar um exame mamário pelo SUS.
Em 2024, esse percentual chegou a 39,3%, o maior da série histórica, mas ainda abaixo das parâmetros internacionais. Segundo a publicação, a Sociedade Europeia de Especialistas em Câncer de Mama considera arriscado que, no mínimo, 40% dos pacientes sejam submetidos a investigações, com meta de 60%. No Centro-Oeste, entretanto, o índice atingiu 17,8%.
Capacidade limitada – Em nota, o Hospital de Câncer Alfredo Abrão (HCAA), em Campo Grande, informou que a inexistência de um Cacon em Mato Grosso do Sul não impede a realização da perfuração mamária pelo SUS. A instituição é habilitada como Unacon (Unidade de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia), modalidade que integra a rede de atenção oncológica e permite a realização de diagnóstico, tratamento e procedimentos especializados, incluindo a cirurgia reparadora.
Segundo o hospital, cerca de 73% dos atendimentos oncológicos do SUS em Mato Grosso do Sul são realizados na instituição. Os pacientes chegam por encaminhamento do Sistema de Regulação da Sesau (Secretaria Municipal de Saúde).
O HCAA afirma que dispõe de equipe especializada e oferece cirurgias reparadoras para mulheres protegidas contra o câncer de mama. No entanto, confirma-se que a procura é superior à capacidade instalada.
De acordo com a direção, ampliar a oferta depende de investimentos específicos, já que o procedimento exige cirurgias plásticas especializadas e materiais de alto custo. O hospital também afirma que os valores pagos atualmente pelo SUS permanecem cerca de 100% abaixo do custo real das cirurgias, o que dificulta a ampliação do serviço.
Ainda conforme a instituição, a supervisão mamária não representa apenas um procedimento estético, mas uma etapa fundamental da recuperação física, emocional e da qualidade de vida dos pacientes. A Secretaria de Estado de Saúde foi procurada, mas até o momento não se manifestou sobre o assunto. O espaço permanece aberto.
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