Mas não foi. O chute foi ruim, o goleiro da Noruega defendeu e o jornalista brasileiro baixou o celular e depois a cabeça. Eu podia ouvir um triste fluxo de português borbulhando de sua boca.
O jogo inteiro foi assim. Os brasileiros continuaram correndo por todo o campo, criando boas chances de gol e depois atrapalhando-as de forma cada vez mais cômica. “Vamos! Passa!” diria o jornalista brasileiro no início de um ataque. Ele falava com os jogadores com ternura e súplica, como se fossem seus filhos. E então, quando a bola passava pelo gol ou caía nos pés de um zagueiro norueguês, ele apenas olhava para frente. Com o passar dos minutos, sem gols, o jornalista brasileiro parecia desinflar. Seu sofrimento encheu a cabine de imprensa como um gás instável.
Finalmente, aos 79 minutos, algo aconteceu – um momento decisivo, de um jogador especialista neles.
Precisamos de fazer uma pausa, agora, para discutir o fenómeno de Erling Haaland. Haaland é o avançado da Noruega, o jogador responsável por marcar golos, e cumpriu esta tarefa a um ritmo mais rápido do que qualquer outro jogador na longa história do desporto. Haaland pode marcar gols de qualquer maneira que a Noruega precisar. Ele pode correr como um velocista olímpico e lançar a bola em velocidades perigosas com qualquer um dos pés; ele pode se contorcer como uma bailarina, no ar, para acertar os tiros delicadamente em ângulos estranhos; ele pode carregar uma pilha inteira de defensores, como um alegre avô de quíntuplos, e saltar para cabecear a bola.
Mas não são apenas os gols, ou a forma como ele os marca, que fizeram de Haaland a estrela desta Copa do Mundo. Isso é absolutamente tudo sobre ele. Haaland parece ter sido convocado de um fiorde secreto, de uma poção de fogo de dragão e água de geleira, para dominar todas as telas do mundo. Ele tem 1,80 metro e cabelo loiro dourado que cai sobre os ombros. Tudo o que ele faz é extravagante, caricatural e mítico. Ele inala memes e exala GIFs. Talvez você tenha visto a foto daquela vez em que ele chutou uma bola direto no rosto de um defensor, de perto, achatando o rosto e a bola de uma forma que parecia desafiar a física. Ou um vídeo de seus companheiros pulando em suas costas e montando-o como um cavalo. Ou uma imagem dele comemorando um gol sentado na grama, em posição de lótus, fechando os olhos para meditar. (Esta é a tela de bloqueio do telefone da minha filha.)